Abismos, minha mãe e barquinhos de papel

Eu gosto muito das palavras.
Desde criança sempre me fascinou a ideia de que uma palavra pode despertar tantos sentimentos e em tantas pessoas diferentes. Ás vezes, quando eu estou lendo um livro, eu paro numa frase que tenha me tocado de maneira particular e junto o livro do peito, como se quisesse que aquelas palavras se gravassem sob a minha pele. 
Talvez isso aconteça.  

Outro dia li, numa dessas páginas de facebook, uma frase que me marcou muito: 

“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.” 

Abismos. Quero falar sobre eles hoje.
Talvez uma menina de 15 anos que se descobre grávida de um namorado que quer tudo, menos responsabilidades, esteja a beira de um abismo. 
Ou quando o relacionamento com o pai dessa criança acaba, antes mesmo da criança fazer um ano e essa menina (que agora já encara a vida com mulher) se vê sendo mãe solteira.
Talvez quando essa mãe passa a trabalhar o dia todo e a noite chegar em casa e ir com a filha pra escola porque precisa e vai terminar os estudos, o cansaço seja um abismo.
Talvez o adiamento dos sonhos pra poder sonhar os sonhos dos filhos seja um abismo.
Talvez ver os filhos crescendo e saber que eles terão que aprender com seus próprios tropeços seja um abismo.
Talvez ter uma filha igual em temperamento e personalidade, seja um abismo. 

Talvez algumas pessoas conheçam esses abismos, que são do meu mundo. Mas no momento eu não me importo. O que eu queria dizer mesmo, é que encarar abismos não deve ser fácil. Encarar o abismo de ser, ao mesmo tempo, mãe e pai de uma filha teimosa, cabeça dura, brigona, não deve ser nada fácil.  
E é ai onde entra o que eu quero.
Quando entrei na lojinha, e disse pra moça do balcão que queria um presente de dia dos pais pra minha mãe, o que eu tava querendo dizer é que eu cheguei à beira do seu abismo e que eu sinto muito não ter feito isso antes, mas eu to aqui. 
E é isso. Por isso esse barquinho (diferentes e iguais, como nós duas somos), é pra lembrar que a gente pode, e que a gente vai passar por tudo.

É pra lembrar que mesmo quando a gente passar dias sem se ver, porque eu saio de manhã e só chego de noite, ou porque eu fiquei presa no meu quarto mesmo. Ou quando a gente for muito igual e a teimosia acabar virando briga. Ou quando a gente perceber que pra estarmos juntas precisamos de MUITO amor incondicional. Ou quando eu estiver muito longe e parecer ocupada demais com a minha vida de gente grande.. Esse barquinho é pra lembrar que a gente SEMPRE vai poder navegar de volta uma pra outra, mesmo quando a gente estiver no meio de um abismo. 




Presente do dia dos pais de mainha. <3





Feliz dia dos pais, mãe! 





                  Jessyka Faustino


Comentários

Postagens mais visitadas