Subi no ônibus, lotado. Cansada, muito cansada. A senhora na minha frente pede pra segurar minhas bolsas, deixo agradecida. O cansaço não me deixa saber/perceber quando ele chegou, mas pouco tempo depois o percebo, perto. Muito perto. Perto o suficiente pra que eu senta sua respiração no meu pescoço.
"Não pode ser, ele só ta querendo passar, afinal, o ônibus tá muito cheio né? Calma."
Respiro fundo, espero, ainda sentindo sua respiração perto do meu pescoço, quase posso sentir seu sorriso de lado, passaram quantos minutos? Dou um passo a frente pra que demonstrar que aquilo está desagradável, ele também dá um passo a frente. Agora não posso mais sair dali, aperto. Sufocamento. Perto demais. Quanto tempo passou? Tá chegando? A senhora na minha frente me olha, ela entendeu, ela sabe. Ela não sabe o que fazer, parece tão desconfortável quanto eu. Não dá pra aguentar muito mais tempo, fecho os olhos, respiro fundo.
"O senhor poderia desencostar de mim?"
Pergunto alto o suficiente, minha voz treme, insegura. Eu percebi, ele percebeu.Ainda sem sair de perto de mim, ele volta a sorrir de lado, seus olhos me examinam da cabeça aos pés e sorriso torna-se maior. Ele não precisa dizer nada, eu entendo. Ele não era o primeiro e nem seria o último que mede o meu direito a voz pelo tamanho do meu short, mas dessa vez não.
"O senhor vai desencostar de mim, por favor?"
Peço, dessa vez mais alto, mais segura. Sentindo o gosto e a força de cada sílaba que pronuncio, o sorriso dele some, ele dá um passo pra trás, ainda me examinando.
"Moça, o ônibus ta cheio! Eu não tava fazendo nada demais."
Ele sai, ofendido. Outras pessoas resmungam. "Quer aparecer.", "Com esse short também. Quer o que?", me sinto pequena, frágil diante desses olhares de acusação e repúdio, viagem longa. Muito longa. A senhora na minha frente pega minha mão, me olha, me entende.
"Ah menina! Isso é normal. Eu mesma, não falo nada pra não dar confusão. Mas acontece sempre.Pensa pelo lado bom, ele deve ter te achado muito bonita, né?"
Não! Quis gritar. Quis dizer a ela que não, que ela não devia ficar calada. Que não, que aquilo não foi um elogio pra mim. Pelo contrário, foi degradante. Quis dizer a ela que não era normal, não era aceitável. Mas meu ponto chegou, graças a Deus!
Por hoje acabou, por hoje "não foi nada", por hoje estou a salvo. Por hoje. Até quando?
Jessyka Faustino
"Não pode ser, ele só ta querendo passar, afinal, o ônibus tá muito cheio né? Calma."
Respiro fundo, espero, ainda sentindo sua respiração perto do meu pescoço, quase posso sentir seu sorriso de lado, passaram quantos minutos? Dou um passo a frente pra que demonstrar que aquilo está desagradável, ele também dá um passo a frente. Agora não posso mais sair dali, aperto. Sufocamento. Perto demais. Quanto tempo passou? Tá chegando? A senhora na minha frente me olha, ela entendeu, ela sabe. Ela não sabe o que fazer, parece tão desconfortável quanto eu. Não dá pra aguentar muito mais tempo, fecho os olhos, respiro fundo.
"O senhor poderia desencostar de mim?"
Pergunto alto o suficiente, minha voz treme, insegura. Eu percebi, ele percebeu.Ainda sem sair de perto de mim, ele volta a sorrir de lado, seus olhos me examinam da cabeça aos pés e sorriso torna-se maior. Ele não precisa dizer nada, eu entendo. Ele não era o primeiro e nem seria o último que mede o meu direito a voz pelo tamanho do meu short, mas dessa vez não.
"O senhor vai desencostar de mim, por favor?"
Peço, dessa vez mais alto, mais segura. Sentindo o gosto e a força de cada sílaba que pronuncio, o sorriso dele some, ele dá um passo pra trás, ainda me examinando.
"Moça, o ônibus ta cheio! Eu não tava fazendo nada demais."
Ele sai, ofendido. Outras pessoas resmungam. "Quer aparecer.", "Com esse short também. Quer o que?", me sinto pequena, frágil diante desses olhares de acusação e repúdio, viagem longa. Muito longa. A senhora na minha frente pega minha mão, me olha, me entende.
"Ah menina! Isso é normal. Eu mesma, não falo nada pra não dar confusão. Mas acontece sempre.Pensa pelo lado bom, ele deve ter te achado muito bonita, né?"
Não! Quis gritar. Quis dizer a ela que não, que ela não devia ficar calada. Que não, que aquilo não foi um elogio pra mim. Pelo contrário, foi degradante. Quis dizer a ela que não era normal, não era aceitável. Mas meu ponto chegou, graças a Deus!
Por hoje acabou, por hoje "não foi nada", por hoje estou a salvo. Por hoje. Até quando?
Jessyka Faustino


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