Ensaio sobre o corpo

Alguém disse em algum lugar que a maior forma de reprimir uma mulher é impondo um padrão de beleza ao seu corpo. Eu descobri ainda muito pequena que era bonita mas precisava emagrecer só um pouquinho.
Passei boa parte da minha vida lutando contra números na balança, às vezes até de maneira inconsciente. Às vezes até hoje, nesses dias de aceitação.
O que acontece é que quando somos ensinadas desde cedo com metas de perfeição inalcançáveis, a gente odeia o corpo. Odeia porque no espelho o que vemos é a mensagem de somos erradas, que há algo terrivelmente quebrado em nós e a gente não consegue consertar.
O padrão esmaga.
E eu me lembro de ter destruído meu corpo muitas vezes nesse processo de buscar por aceitação, até mesmo a minha aceitação.
Agora estou nesse processo de reaproximação com meu corpo, desde as mãos e entendendo que a vida se prolonga pra além da ponta dos dedos quando toco algo ou alguém, até as estrias que se insinuam pela minha barriga. Eu e minha barriga fomos reapresentadas a pouco tempo, estamos meio intimidadas ainda, mas estou me dando o meu tempo, no meu passo. E hoje foi um dia importante.
Acabei de doar todos os meus shorts e calças que não me serviam, alguns biquínis que estavam guardados há um par de anos na expectativa de que voltaria a usá-los, roupas que comprei sem caber em mim pra me motivar a perder peso ou só pra passar o constrangimento de estar na loja há algumas horas e nada ter servido. Sei que é motivador ler sobre mulheres que voltaram a seus corpos dos sonhos e estão agora plenas e felizes, mas é também extremamente dolorido e sufocante viver esperando pela felicidade como se ela estivesse em algum lugar distante no passado (no corpo que tive) ou no futuro (no corpo voltarei a ter).Não quero viver projetando emoções em promessas vazias, mesmo que a promessa seja a de voltar a caber naquela saia jeans que eu tanto amo.
Estou cada vez mais consciente do meu corpo, cuidando dele com amor, integrando cada uma das partes. Mesmo as cicatrizes que me dizem cada vez menos sobre quedas e fracassos e cada vez mais sobre sobrevivência. Penso, sim, em torná-lo cada vez mais forte, firme e ativo, por relembrar que esse corpo sou eu, minha casa. Honrar minhas marcas, minhas escolhas.
Eu adoraria terminar esse texto dizendo do quanto tenho me amado todos os dias e de como não me abalo mais com pequenas ofensas e opressões diárias (inclusive, as que eu mesma cometo contra mim), mas na verdade, nessa caminhada sobre aceitação e amor próprio eu ainda estou engatinhando e às vezes não é fácil e nem um pouco bom.
Mas eu sigo firme acreditando na estrada que construo, olhando pra dentro com amor. Eu ainda estou no meio do caminho do meu próprio caminho.

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