Sobre amor e silêncio
Até um tempo atrás, eu nunca fui a namorada de alguém.
Nem na brincadeira de boneca com as amigas, nem na escola na época que todas as meninas estavam dando o primeiro beijo, nem na Universidade quando todo mundo tava descobrindo o seu amor revolucionário, nunca.
Isso não quer dizer que eu não conheci pessoas, só que, eu nunca fui o suficiente pra sair do papel de tia da boneca, do beijo escondido no beco perto de casa, do sarro no banheiro do bloco na festa quando já ta todo mundo bêbado.
Levar pra casa? Almoçar com a família? Demonstração de afeto público? Andar de mãos dadas? Não, eles me amavam baixinho, porque “ninguém precisava saber”, porque era “melhor assim”, porque era “o que eles podiam me dar”. E a gente se acostuma.
A gente se acostuma a ideia que é carente porque reclama que merece mais atenção.
A gente acostuma que é difícil de ser amada, e aquela pessoa, que nos dá tão pouco, ta fazendo um grande sacrifício nos “amando”.
A gente acostuma a entrar pela porta de trás pra não dar de cara com a mãe dele/a, porque
“ainda não ta na hora de ser apresentada”, e se acostuma a terminar o relacionamento sem
nunca ser apresentada também, porque essa hora nunca chegou.
A gente se acostuma a dormir ansiosa esperando a resposta no whatsapp, sabendo que a pessoa ta online e não respondeu porque não quis, e a suspirar aliviada quando a resposta chega, como se a pessoa tivesse fazendo um favor por conversar.
A gente se acostuma a ter medo de pedir as coisas e a se desculpar quando o outro não gosta de algo que a gente acredita.
A gente se acostuma a amores livres que nunca nos dão liberdade. Pelo contrário.
A gente se acostuma a achar que o problema ta na gente, é fácil acreditar nisso quando sempre acontece do mesmo jeito.
A gente se acostuma, eu sei, mas não devia.
Que ninguém mais aceite amores silenciosos.


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