Reflexões sobre luto e sobrevivência
Descobri que ele tinha partido antes que fosse me contado, a ligação de um dos nossos amigos às 6 da manhã com perguntas cuidadosas demais, a falha na voz dele ao pedir pra eu passar o telefone pra outra pessoa, o arrepio gélido que desceu desde a minha nuca até a ponta dos meus pés. Aconteceu, eu sabia. Porque alguma coisa dentro da gente sempre sabe, como se ausência física dele mudasse também a temperatura terrestre, a composição do oxigênio. Precisei me lembrar de porque respirar era tão importante, já que no momento era tão doloroso que parecia mais com um castigo. Aconteceu.
A confirmação veio uns dias depois, sabe quando você ta na praia e vem uma onda muito forte e você fica momentaneamente submerso? E aquela primeira puxada de ar entre uma onda e outra, quando finalmente você consegue firmar os dois pés no chão? O ar abre espaço pelas vias áreas misturado com todo o sal que te cobriu segundos antes e expande seu peito como se fosse uma língua de fogo. E tão rápido quanto o ar entrando vem o desejo irracional de não ter feito o movimento, por alguns milésimos de segundo, sobreviver parece pior que qualquer outra alternativa. Foi isso. Nos dias de dúvidas eu senti como se estivesse sufocada e ao mesmo tempo alheia, submersa, foi horrível, a dúvida é horrível porque ela tira você da realidade. Receber a confirmação me trouxe de volta, e também me levou pra tão próximo do inferno quanto é humanamente possível chegar.
Nos primeiros dias o inferno fui eu. Eu odiava o modo como tudo aconteceu. Depois de tudo? Não fazia sentido nenhum. Eu odiava estar distante, justo eu, pra quem ele confidenciou que tinha medo de chegar ao fim sozinho. Eu odiava não ter conseguido salvá-lo, mesmo que isso não dependesse de mim. Eu me sentia ruim, suja, pequena, insuficiente. Viver, dentro do meu peito foi um inferno.
Os dias foram passando e andar pela rua em que o vi a primeira vez ardia, ouvir a música que ele gostava de cantarolar fazia meu estômago embrulhar, mas eu fazia mesmo assim, como se fosse um ritual, eu me machucava com as nossas lembranças, porque doer lembrando pareceu mais aceitável que esquecer, eu não quero esquecer, eu não posso. Cada esquina desse bairro guardava a lembrança de um beijo roubado, um sorriso trocado, alguma briga boba. Algumas vezes sai de casa a noite andando a esmo, na esperança de esbarrar com ele em algum lugar e ouvir um sermão de porque estava andando tarde na rua, acompanhado do abraço de sempre, mas as ruas não pareciam mais as mesmas, a realidade me acertava de novo, tão forte que por vezes fiquei desnorteada a ponto de não saber voltar pra casa, mesmo sendo esse o bairro em que vivo desde sempre. Esse lugar também era um inferno.
O luto me jogou de volta na sensação de estar submersa, vez ou outra intercalada por um choque de realidade que queimava meus pulmões como o ar entrando. Mas o nosso instinto humano, o racional, é o que nos impele a continuar respirando, mesmo quando respirar dói tanto quanto atear fogo no próprio peito. É da nossa natureza querer sobreviver, assim, continuei fazendo as coisas do dia a dia, ainda que no automático. Ufal, médico, casa da vó, encontrar as amigas. Parece que a vida segue, mas algo mudou.
Eles não sabem, não conseguem sentir. Mas ele morreu e isso mudou tudo na atmosfera, na temperatura, nos sons ao meu redor. Lembro que numa das nossas últimas conversas ele disse, enquanto apagava o cigarro e brincava com a bituca na mão, sorrindo como se tivesse contando um grande segredo, que eu tinha o dom pra ser sobrevivente.
É isso que é sobreviver?
Quando dói tanto que você nem consegue respirar? É assim que se sobrevive?
Não é legal quando garotos morrem.


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