coisas que aprendi na estrada
Ao todo foram 5 viagens, pra 3 estados, 8 ônibus e 2 aviões, 262 horas de viagem, sozinha.
Na estrada, eu descobri que sou uma pessoa coletiva.
Quando as horas da viagem se tornavam todas iguais e eu começava a me perguntar se não estávamos andando em círculos, me atentava as pessoas a minha volta.
Que histórias carregavam? Pra onde iam? Porquê? Imaginar uma vida pra cada pessoa que dividia aquele espaço comigo me salvava do tédio, e vez ou outra, quando eu tinha sorte, algum dos passageiros dividiam comigo um copo de café, um cobertor um pouco mais quentinho, um pouco de quem eram:
Um pastor que estava indo morar com a mulher que ele havia conhecido na internet e acreditava ser prometida por deus;
Um ex-traficante que não via a mãe desde os 5 anos porque ela estava presa por tráfico;
Uma menina de 15 anos indo atrás do emprego prometido numa fábrica de chocolate, deixando 2 filhos que teve com o tio aos cuidados da avó;
Um lutador premiado de kickboxing do interior do MS que hoje troca seu trabalho por hospedagem e alimentação no hostel que vive;
Uma senhora que fugia do sofrimento de ter tido os 2 filhos mortos na sua frente;
E por último, uma menina que algumas vezes parecia conhecer o caminho inteiro, mas na verdade, o fazia por ânsia de descobrir algo. Algo que talvez ainda não existesse. Essa sou eu.
Sentada sempre nas poltronas 1, 19 ou 26, escrevi três capítulos de uma monografia, um projeto de mestrado, um artigo, alguns trabalhos da graduação e incontáveis páginas de diário.
No banheiro apertado e quente do ônibus 19450 da Gontijo, chorei pela primeira vez por medo do futuro que se insinuava grande e assustador demais.
No chão da sala de desembarque do Aeroporto Eurico Salles pela primeira vez me senti em casa no estado que escolhi pra viver, e eu nem sabia que tinha escolhido, mas a sensação de pertencimento era tão forte que precisei de alguns minutos pra ter coragem de encarar de frente.
Apoiada na frente do ônibus 23780 me deixei, pela primeira vez sentir por completo. E a dor de estar sob a minha pele foi tanta que eu desisti. 12 comprimidos, lembro pouco da viagem.
Enquanto esperava o ônibus 19130 sair, liguei pra minha mãe e disse "estou indo pra casa" e eu que não sou boa em despedidas, pela primeira vez sorri. Eu já estava em casa, em paz comigo mesma. Habitando em mim.
No ponto de apoio da viação Itapemirim, em Gandu, algum lugar da Bahia, eu cedi ao antidepressivo pela primeira vez, eu não queria mais desisti.
Na estrada eu aprendi que distâncias são relativas.
A Bahia ainda é um mundo, mas sua extensão pode ser abrandada pela excitação de comemorar com a realização do sonho de alguém que sonha com você. 32 horas de viagem são encaradas com um sorriso quando do lado de lá tem omelete e cafuné me esperando. E as mesmas 32h podem ser torturantes quando a notícia que você ta levando não é a que tanto esperou e você só quer terminar com isso logo.
Aprendi que é preciso ir embora.
Por mais assustador que pareça. É preciso ir embora, pra que você saiba que não é tão importante assim, que as coisas não tem esse peso todo, que o fim do mundo não vai ser hoje ainda, nem amanhã. A vida há de se reinventar.
Na estrada eu aprendi também que é preciso voltar. Pra perceber que aquele lugar que você ocupa, é só seu. E que ainda que o mundo continue com ou sem você, naquele espaço, pr'aquelas pessoas, você é necessária.
2017 teve esse gosto de viagem, às vezes ansiosa, às vezes cansativa, alguns dias apressada igual o dia que fiz 15h de viagem e já comprei outra passagem pra 45 minutos depois, mas sempre me deixando algo, em algum lugar.
Sair de Maceió ainda é sonho, mas estar aqui, neste momento tendo certeza da paz que sinto por estar viva e viver sob essa pele, dentro dessa mente, sentindo com esse corpo e sabendo o tanto que precisei caminhar até aqui, estar exatamente onde estou é poesia.


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